quarta-feira, 29 de abril de 2015

O falsificacionismo





Outra saída para o problema da indução, pelo menos tal como ele afeta o tema do método científico, é negar que a indução seja a base do método científico. O falsificacionismo, a filosofia da ciência desenvolvida por Karl Popper (1902-1994), entre outros, faz isso mesmo. 
Os falsificacionistas defendem que a perspetiva simples da ciência está errada. Os cientistas não começam por fazer observações, começam por uma teoria. As teorias científicas e as chamadas leis da natureza não pretendem à verdade: ao invés, são tentativas especulativas de oferecer uma análise de vários aspetos da natureza. São conjeturas: suposições bem informadas, concebidas para serem melhores do que as teorias anteriores.


Estas conjeturas são então sujeitas a testes experimentais. Mas estes testes têm um objectivo muito específico. Não pretendem demonstrar que a conjectura é verdadeira, mas antes demonstrar que é falsa. A ciência funciona tentando falsificar teorias e não tentando demonstrar que são verdadeiras. Qualquer teoria que se mostre ser falsa é abandonada ou, pelo menos, modificada. A ciência progride, assim, através de conjecturas e refutações.
(…)
A falsificação tem pelo menos uma grande vantagem em relação à perspetiva simples da ciência: um único caso de falsificação é suficiente para mostrar que uma teoria não é satisfatória, ao passo que por mais observações que confirmem uma teoria, nunca podem ser suficientes para nos darem cem por cento de certeza de que a teoria será confirmada por todas as observações futuras.



                                    Nigel  Warburton, Elementos Básicos de Filosofia




Método das Conjeturas e Refutações

A indução não desempenha qualquer papel na justificação das teorias científicas - a justificação das teorias científicas depende de procedimentos dedutivos

1.    Formulação de um problema

2.    Apresentação da teoria como hipótese ou conjetura – proposta como tentativa para resolver o problema

3.    Tentativas de refutação da teoria através de testes experimentais

4.    Se a conjectura resistir aos testes, é corroborada (aceite como a melhor teoria disponível). Se não resistir aos testes, é falsificada e, por isso, abandonada.


O falsificacionismo, em vez de procurar o acordo entre a predição (consequência deduzida da hipótese) e a observação – confirmação-, procura observações que a falsifiquem.


Objeções:

Os cientistas têm, normalmente, o objetivo de confirmar as suas teorias


Muitas teorias científicas não são conclusivamente falsificáveis ótese) e a observação – confirmação-, procura observações que a falsifiquem.

A evolução da ciência segundo Popper e Kuhn

A evolução da ciência segundo Popper



Podemos dizer que o crescimento do nosso conhecimento é o resultado de um processo muito parecido com aquilo a que Darwin chamou «selecção natural», ou seja, da seleção natural de hipóteses: o nosso conhecimento consiste, em cada momento, naquelas hipóteses que mostraram a sua aptidão (comparativa) ao sobreviver até agora na sua luta pela existência, uma luta competitiva que elimina as hipóteses inaptas.

Podemos aplicar esta interpretação ao conhecimento dos animais e ao conhecimento pré-científico. O que é peculiar no conhecimento científico é o seguinte: nele torna-se mais dura a luta pela existência através da crítica consciente e sistemática das nossas teorias. Deste modo, enquanto o conhecimento dos animais e o conhecimento pré científico crescem sobretudo através da eliminação daqueles que mantêm as hipóteses inaptas, a crítica científica  faz frequentemente as nossas teorias perecerem em vez de nós, eliminando as nossas crenças antes que essas crenças conduzam à nossa eliminação.

                                                         Karl Popper, Conhecimento Objetivo


EVOLUÇÃO E OBJETIVIDADE DA CIÊNCIA

Progresso científico - eliminação das teorias menos aptas

A ciência progride através de um processo seletivo de eliminação de erros, onde teorias anteriormente corroboradas são, por fim, falsificadas e substituídas  por outras.
o   Quando uma teoria foi refutada por testes experimentais e é substituída por uma conjetura que resistiu a testes severos sendo corroborada, há progresso científico

o   Hoje estamos mais próximos da verdade do que há séculos atrás porque conjeturas mais falsificáveis foram refutadas, foram-se eliminando erros.
As conjeturas que resistem ao teste da crítica e da falsificação aproximam-se da verdade.
O progresso científico mede-se aproximação à verdade objetiva.
A ciência tem como meta a verdade que é inalcançável:

o   As teorias são conjeturas, nunca se provam definitivamente
  o   Uma teoria origina novos problemas  
Racionalidade científica e objectividade
     Adoção de uma atitude crítica em relação às teorias científicas, sujeitando-as a testes que as refutem
    A verdade ou falsidade de uma teoria é independente de crenças ou   opiniões e depende apenas da sua     a correspondência aos factos
    A  teoria científica resulta de critérios objetivos - a resistência aos testes empíricos. ciência é objetiva porque     uma conjectura é sujeita a testes severos independentemente do cientista que a propõe e do contexto social.

A evolução da ciência segundo Kuhn


 ciência normal, a atividade em que, inevitavelmente, a maioria dos cientistas consome quase todo o seu tempo, constitui-se na suposição de que a comunidade científica sabe como é o mundo. Grande parte do êxito da pesquisa deve-se ao facto da comunidade se encontrar disposta a defender essa suposição, mesmo que seja necessário pagar um preço elevado. A ciência normal, por exemplo, suprime frequentemente inovações fundamentais, devido a permanecerem demasiado subversivas relativamente às suas crenças habituais.

No entanto, (...) a própria natureza da investigação normal assegura que a inovação não seja ignorada durante muito tempo. Por vezes, um problema normal que deveria resolver-se por meio de regras e procedimentos conhecidos, opõe resistência aos esforços persistentes dos mais notáveis especialistas. Outras vezes, um instrumento concebido e construído para a investigação normal não dá os resultados esperados, revelando uma anomalia que, apesar dos esforços repetidos, não corresponde às esperanças profissionais.
A ciência normal perde-se muitas vezes nestes e noutros embaraços. E quando se acumulam, isto é, quando a comunidade de cientistas não pode passar por alto as anomalias que subvertem a tradição existente das práticas científicas, iniciam-se investigações extraordinárias que levam, por fim, à adoção de um conjunto de crenças, a uma nova base para a prática da ciência.
Os episódios extraordinários em que têm lugar essas mudanças de paradigmas, são denominadas neste ensaio por revoluções científicas.
                                                                      Kuhn, A Estrutura das Revoluções científicas

A evolução da ciência segundo Kuhn


A ciência normal, a atividade em que, inevitavelmente, a maioria dos cientistas consome quase todo o seu tempo, constitui-se na suposição de que a comunidade científica sabe como é o mundo. Grande parte do êxito da pesquisa deve-se ao facto da comunidade se encontrar disposta a defender essa suposição, mesmo que seja necessário pagar um preço elevado. A ciência normal, por exemplo, suprime frequentemente inovações fundamentais, devido a permanecerem demasiado subversivas relativamente às suas crenças habituais.

No entanto, (...) a própria natureza da investigação normal assegura que a inovação não seja ignorada durante muito tempo. Por vezes, um problema normal que deveria resolver-se por meio de regras e procedimentos conhecidos, opõe resistência aos esforços persistentes dos mais notáveis especialistas. Outras vezes, um instrumento concebido e construído para a investigação normal não dá os resultados esperados, revelando uma anomalia que, apesar dos esforços repetidos, não corresponde às esperanças profissionais.
A ciência normal perde-se muitas vezes nestes e noutros embaraços. E quando se acumulam, isto é, quando a comunidade de cientistas não pode passar por alto as anomalias que subvertem a tradição existente das práticas científicas, iniciam-se investigações extraordinárias que levam, por fim, à adoção de um conjunto de crenças, a uma nova base para a prática da ciência.
Os episódios extraordinários em que têm lugar essas mudanças de paradigmas, são denominadas neste ensaio por revoluções científicas.
                                                                      Kuhn, A Estrutura das Revoluções científicas

A HISTÓRIA DA CIÊNCIA COMO SUCESSÃO DE PARADIGMAS


PARADIGMA
Conjunto de conceitos fundamentais e de procedimentos padronizados, aceites pela comunidade científica, que orientam e determinam a prática científica numa determinada época.

Elementos dos paradigmas:

Leis e pressupostos teóricos fundamentais
Regras para aplicar as leis à realidade
Regras para usar instrumentos científicos
Princípios metafísicos e filosóficos


CIÊNCIA NORMAL

Ciência que se faz no âmbito de um paradigma; a atividade de resolução de problemas dirigida pelas regras do paradigma.
COMUNIDADE CIENTÍFICA
Comunidade em que os cientistas se inserem para desenvolver o trabalho de investigação, de acordo com o paradigma vigente
ANOMALIAS

Enigmas que resistem à tentativa de solução

CRISE
Período em que um número elevado de anomalias leva o paradigma vigente a entrar em rutura e a formar-se um novo paradigma.
CIÊNCIA EXTRAORDINÁRIA
Atividade científica que entra em rutura com o paradigma vigente e se orienta por outro paradigma.
REVOLUÇÃO CIENTÍFICA
Adoção de um paradigma novo por parte de toda a comunidade científica.

OS PARADIGMAS SÃO INCOMENSURÁVEIS, NÃO PODEM SER COMPARADOS
OBJETIVAMENTE DE MODO A DETERMINAR QUAL É O MELHOR
 Não se podem comparar objetivamente dois paradigmas de modo a afirmar que um é superior ao outro porque são diferentes, com linguagens diferentes. 
Um paradigma determina um modo de ver o mundo. Entre dois paradigmas existe um abismo que não é possível transpor.

Teorias da arte

Teorias da arte

TEORIAS
CARACTERÍSTICAS
OBJEÇÕES

Arte como
imitação

A arte é imitação da realidade
A existência de obras de arte que nada imitam

Se a arte é imitação, a melhor seria a mais realista, mas muita arte, embora representativa, não é imitação


Arte como expressão
(Tolstoi)

A arte é a expressão da emoção do artista
A obra de arte transmite intencionalmente o mesmo sentimento que o artista experimentou
A existência de obras de arte que não expressam emoções do artista

A dificuldade em saber se a emoção do artista foi verdadeira e se o que sentimos corresponde ao que o artista nos quis transmitir
A arte como forma significante
(Clive Bell)


É arte toda a obra que possui uma forma significante

Forma significante é a combinação de cores, linhas e formas, capaz de provocar a emoção estética.



Não é consensual que exista uma emoção estética (distinta das outras emoções humanas)

O conceito de forma significante é controverso já que todas as pinturas possuem uma certa combinação de linhas, cores e formas

É controverso o facto desta teoria considerar que apenas a forma é relevante para a obra de arte e não o conteúdo


O que é a arte? Três teorias sobre um problema central da estética - Crítica

TEORIA DA ARTE COMO IMITAÇÃO

Esta é uma das mais antigas teorias da arte. Foi, aliás, durante muito tempo aceite pelos próprios artistas como inquestionável. A definição que constitui a sua tese central é a seguinte:

Uma obra é arte se, e só se, é produzida pelo homem e imita algo.

A característica própria desta teoria não reside no facto de defender que uma obra de arte tem de ser produzida pelo homem, o que é comum a outras teorias, mas na ideia de que para ser arte essa obra tem de imitar algo. Daí que seja conhecida como teoria da arte como imitação.

Vários foram os filósofos que se referiram à arte como imitação. Alguns desprezavam-na por isso mesmo, como acontecia com o conhecido filósofo grego Platão que, ao considerar que as obras de arte imitavam os objectos naturais, via essas obras como imagens imperfeitas dos seus originais. Ainda por cima quando, no seu ponto de vista, os próprios objectos naturais eram por sua vez cópias de outros seres mais perfeitos. Já o seu contemporâneo Aristóteles, mantendo embora a ideia de arte como imitação, tinha uma opinião mais favorável à arte, uma vez que os objectos que a arte imita não são, segundo ele, cópias de nada.

(...)
TEORIA DA ARTE COMO EXPRESSÃO
Insatisfeitos com a teoria da arte como imitação (ou representação), muitos filósofos e artistas românticos do século XIX propuseram uma definição de arte que procurava libertar-se das limitações da teoria anterior, ao mesmo tempo que deslocava para o artista, ou criador, a chave da compreensão da arte. Trata-se da teoria da arte como expressão. Teoria que, ainda hoje, uma enorme quantidade de pessoas aceita sem questionar. Segundo a teoria da expressão:

Uma obra é arte se, e só se, exprime sentimentos e emoções do artista. (...)

Munch, O Grito (1893)

TEORIA DA ARTE COMO FORMA SIGNIFICANTE


Verificando que a diversidade de obras de arte é bem maior do que as teorias da imitação e da expressão fariam supor, uma teoria mais elaborada, e também mais recente, conhecida como teoria da forma significante (abreviadamente referida como “teoria formalista”), decidiu abandonar a ideia de que existe uma característica que possa ser directamente encontrada em todas as obras de arte. Esta teoria, defendida, entre outros, pelo filósofo Clive Bell, considera que não se
 deve começar por procurar aquilo que define uma obra de arte na   própria obra, mas sim no sujeito que a aprecia. Isso não significa que não haja uma característica comum a todas as obras de arte, mas que podemos identificá-la apenas por intermédio de um tipo de emoção peculiar, a que chama emoção estética, que elas, e só elas, provocam em nós. Por esta razão a incluo nas teorias essencialistas. De acordo com a teoria formalista de Clive Bell.

Uma obra é arte se, e só se, provoca nas pessoas emoções estéticas.

(...)
                                                                         Aires Almeida 

Dimensão estética

Desenvolvimento, progresso e objetividade científica- Popper e Kuhn